Também conhecida por azedinha, azeda brava, erva-vinagreira ou vinagreira. Foi quando estava grávida do meu filho que experimentei esta planta tintureira pela primeira vez, ainda na Tasmânia. Como esta, tantas outras plantas, que dentro da minha bolha maioritariamente urbana, desconheci a vida toda, até começar a tingir.

Num dos primeiros contactos que tive com a tinturaria natural, a minha professora disse que também ela nunca mais olhou para a Natureza da mesma forma. Acredito que tornar-me tintureira reparou a minha relação com o mundo natural, tanto quanto a maternidade, que de uma outra forma, igualmente poderosa, me devolveu aos campos, descalça, e aos percursos atentos a cada folha recortada na paisagem, ao mais pequeno dos bichos, e à cor dos campos salpicados de flor.

Quantas são as plantas, que nos rodeiam, das quais não sabemos nem o nome? Ervas daninhas, por vezes, ignoradas ou desdenhadas, mas que a sabedoria ancestral nos ensina a olhar com desenvoltura e gratidão, pelo que nos oferecem. Remédios para o corpo e alma, sabor e nutrientes na cozinha e, nesta área concreta, cor nos tecidos.
Assim é com a azeda, espalhada pelo mundo, em regiões de clima temperado. Para além das propriedades medicinais e culinárias, é muito rica em taninos, o que é, normalmente, uma boa indicação do potencial de uma planta no tingimento de tecidos. Neste contexto, os taninos servem de mordentes, que são os agentes mais importantes em todo o processo de tingimento, pois permitem que a tinta natural adira à fibra (tecido). Com grande concentração de taninos, as sementes da azeda, que surgem nos meses mais quentes, são a parte ideal para colocar no banho de tingimento.




Já as receitas dos séculos XVII e XVIII, para obter preto, incluíam taninos e ferro. Assim, tal como acontece com as bolotas e outras partes do carvalho, por exemplo, os taninos das azedas vão reagir com o sulfato de ferro, após o tingimento, e transformar a cor do tecido de tons terra, para tons mais frios, cinzentos. Foi assim que a cor do linho, que usei neste projecto, foi criada. Um tecido guardado durante mais de dois anos, desde esses dias de espera, quase 40 semanas de gravidez, até ao momento de transformação numa peça de roupa, agora há poucas semanas. Fiz os meus primeiros calções, a partir deste molde, e têm-me acompanhado, muitas vezes, nestes dias quentes, em que encontro outras azedas espalhadas pelos campos do país.



Do meu elo renovado com a Natureza, nasce a certeza de que me move a oportunidade de co-criação com ela, aprendendo e revelando cores escondidas. A admiração, que nunca acaba, quando levanto a tampa da panela para descobrir uma nova cor. Ainda que descrita de forma mais profunda, relembro, nas palavras de Miguel Torga, a beleza desta ligação simbiótica e transcendental:
“As dobras, e as cores do chão onde firmo os pés, foram sempre no meu espírito coisas sagradas e íntimas como o amor. Falar duma encosta coberta de neve sem ter a alma branca também, retratar uma folha sem tremer como ela, olhar um abismo sem fundura nos olhos, é para mim o mesmo que gostar sem língua, ou cantar sem voz. Vivo a natureza integrado nela. De tal modo, que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espectáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito e do eterno.”
Miguel Torga, in “Diário (1942)”